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A face oculta da nova pirâmide alimentar norte-americana

Paulo Niederle*

 

A publicação do novo Dietary Guidelines for Americans movimentou as redes sociais nas últimas semanas. Mesmo no Brasil, onde já tínhamos um Guia Alimentar mais avançado, que é referência global no tema, o documento para os americanos (sic) trouxe à tona velhas e novas controvérsias científicas e políticas. Como não tenho competência para meter a colher nas querelas nutricionais e médicas, vou direto à política, ou mais precisamente, aos impactos sociais da política.


Nas redes sociais, que infelizmente se tornaram o principal espaço para esse tipo de controvérsia, as manifestações sobre o tema parecem revelar observadores que, fixos em uma determinada posição, visualizam apenas duas faces da pirâmide. De um lado, sobressai a crítica aos alimentos ultraprocessados e aos açúcares, bem como o incentivo, ainda que menos evidente, ao consumo de frutas e vegetais. Aliás, nesse lado, nada de novo em relação ao Guia Alimentar brasileiro. Do outro, em alto relevo, uma peça verdadeira publicitária em prol do consumo de carne, lácteos e gorduras saturadas, cujas imagens são muito mais impactantes a recomendação de proteína por quilograma de peso corporal sugerido pelo próprio documento.


Nos próximos meses, uma guerra de narrativas deve se estabelecer entre aqueles cujos olhos foram mais atraídos por um ou outro lado da pirâmide. No centro dessa guerra estarão não apenas as evidências nutricionais e médicas, mas também questões políticas como a apropriação que o guia norte-americano faz de noções muito caras a alguns movimentos alimentares, tais como “real food” que, no Brasil, se aproxima daquela de “comida de verdade”. Outro ponto crítico é o modo como a receita trumpista tem sido associada a um discurso em torno da alimentação tradicional. E assim, enquanto as disputas permanecerão entre essas duas faces visíveis da pirâmide, entre defensores e opositores da produção e do consume de carne, poucos estarão atentos com o que fazem aqueles senhores negacionistas que, na sua face oculta, acabaram de instalar explosivos para implodir toda a pirâmide.


Por mais importante que seja, a questão não é apenas sobre a quantidade recomendada de proteínas, ou sobre a prometida guerra contra os ultraprocessados, que todos ainda pagaremos para ver acontecer. O sucesso da política do negacionista Robert Kennedy Jr., Secretário de Saúde norte-americano que participou de campanhas antivacinas, será medido pela sua capacidade de criar as condições para uma completa deslegitimação de qualquer recomendação séria. E esse ataque à estrutura da pirâmide se deve menos ao documento em si, do que à narrativa que o acompanha. Endossada por grupos políticos vinculados à agropecuária tradicional, de perfil político predominantemente conservador, a narrativa traz consigo uma forte descredibilização da ciência e do Estado.


O que esperar da reação das pessoas quando o governo vem à público e afirma que a ciência estava errada, que tudo o que sabíamos sobre alimentação e saúde mudou de uma hora para outra, que basta virar a pirâmide de cabeça para baixo? O principal efeito dessa política é a descredibilização de qualquer orientação científica e estatal, e isso oferecerá um prato cheio para os mercadores das dietas mágicas. Não estranha, portanto, que o lançamento do novo Guia Americano se tornou a ocasião para influencers de alimentação e saúde correrem às redes sociais para, usando mais a narrativa do que o próprio documento, apresentar as vantagens de suas receitas de alimentação e saúde.


Enfim, independentemente do que se concluirá no futuro sobre as evidências nutricionais e médicas do novo modelo, o estrago já está feito. Assim como tem sido a tônica do governo Trump, a confiança nas instituições foi novamente contaminada.


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* Paulo Niederle é professor do Departamento de Sociologia da UFRGS. Pesquisador do Grupo de Pesquisa em Sociologia das Práticas Alimentar (SOPAS-UFRGS).  As opiniões emitidas nesse texto são de caráter individual.

 
 
 

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